28 28UTC março 28UTC 2009
Â
Em meio ao tumulto
um manso olhar se aproxima.
Uma só voz quase inaudÃvel
esforça-se por ser ouvida…
A entropia parece contaminar
toda sensatez, até mesmo a dos mais sensatos.
No entanto, persiste a mansidão
naquele olhar tranquilo,
daquela voz que não se altera.
Nada que possa mudar as estatÃsticas,
nada que será manchete nos jornais,amanhã.
Mas,o Universo,com seus mágicos receptores
há de captar esse silêncio expressivo
e a mútua compreensão que se instalou
entre seres que se percebem, inteiros.
No mundo fragmentado e transitório das informações
momentos como este passarão…
Idéias transformam-se, vozes diluem-se a cada segundo…
no entanto,ao menos um fragmento do que é eterno,
desprende-se e,retorna às suas origens.
E,a esperança de um dia reencontrá-lo,
dá todo significado à existência…
Â
Quando se escondia
a marginal poesia
era mais fácil escrever…
Quando a gente se refugiava
nos porões dos excluÃdos
as palavras explodiam
a cada minuto e segundo,
sem controle.
Quando havia auto-censura
as objeções do inconsciente
escapavam como fagulhas de fogo,
incendiando o mundo, mesmo em silêncio.
E, intercalando-se entre palavra e silêncio
sobravam as imagens reveladoras
que interpunham-se e sobrepunham-se,
incansáveis.
Quando o medo autêntico dominava
e todo ideal mais puro estava em jogo,
as palavras eram armas poderosas
escondidas num arsenal invisÃvel…
E, sabia-se a real diferença
entre opressão e liberdade.
Agora, configura-se o admiravel mundo novo
em que o medo é indefinido
as armas estão expostas,
o silêncio nada esconde,
as palavras parecem nada revelar.
E os Big Brothers espiam-se mutuamente,
julgando, deliberando, votando…
Essa é a democracia que nos é permitida viver.
Estas são as fagulhas de poema que escapam
de minha inconsciência…
Â
Não sei porque
o verso sempre há de ser
produto da ausência…
O que lateja no ar,
sobrando em forma de poesia
tantas vezes rejeitamos
por ser inútil, no dia-a-dia.
Será esta a razão
das expressões cansadas?
Da canção esquecida,
ou murmurada inconscientemente?
De todo esse ruÃdo que amordaça
o silêncio puro e simples?
Dessa necessidade de criar necessidades,
misturando temperos
para enganar o paladar?
Olha,não sei não,as respostas…
Só faço perguntas,enquanto, como todo mundo,
finjo descansar…
E este corpo realmente adormece,
escolhendo o que lhe é conveniente,
por instinto.
No entanto, aquilo que se chama de alma
está inquieta, esfomeada…
E sabe que não apenas de poesia.
Porque, ao capturá-la, usa-a apenas como alavanca
para lançar-se a um Universo desconhecido.
Do qual sente-se apartada.
Mais perguntas:
será tão egoÃsta essa alma
que com pouco não se satisfaz?
Ou será tão humilde essa poesia,
que facilmente se permite usar?
4 04UTC março 04UTC 2009
Ontem mesmo convocaram-me
para o coral dos desafinados.
Seu responsável bateu alegremente
à porta de minha casa.
vestindo roupas coloridas,
um tanto descombinadas,
e sua gravata era brilhante,
como a de um adorável palhaço.
Disse que havia desistido
de esperar que eu acertasse o tom exato
de minha canção.
E convidou-me a participar, assim mesmo.
Porque amanhã, poderia ser tarde demais.
Preferiu aceitar-me assim mesmo.
Exatamente como sou.
E quanto mais fora do tom eu estivesse
melhor seria.
Então, hoje estou feliz, como há muito
não me sentia.
Porque me encontrarei, amanhã,
com todos os desafinados da região.
E a gente há de se harmonizar, enfim
em toda desafinação.
Não haverá canção imprópria
que não possamos entoar
em nosso sublime desacerto.
E, distante do olhar severo dos puristas
seremos finalmente artistas.
Saindo,definitivamente, do chuveiro.
Â
Todos os dias reinventam-se
incontáveis motivos
para que nossas crianças
não sejam felizes.
Hoje,é preciso muito mais
do que um riacho cantante,
de uma nuvem mutante,
uma estrela brilhando…
lá no céu…
È preciso mais do que uma escola
para ensinar-lhe o que desejam saber
mais do que a tecnologia
para faze-las compreender.
Falta a fluidez da música
a fascinação da nova paisagem
e a devoção pura e simples, pela vida.
E,aqueles que arduamente construÃram
todos esses complicados caminhos
não encontram mais sua própria criança
para entregá-la às nossas crianças.
Nos aventuramos oceano adentro, caminhando,
sem perceber que nossos pés não têm mais apoio.
E nossas raÃzes ficaram ali,como as algas,
presas entre as pedras esquecidas.
É necessário agora que olhos infantis abram-se
enxergando novamente o mundo…
E recomecem a explorar todas as cores perdidas.
Seja na profundeza dos mares.
Seja nas mais altas montanhas.
E deixem as cinzentas cidades, sufocarem-se
em sua poluÃdas ilusões.
25 25UTC fevereiro 25UTC 2009
A lendária felicidade
sempre passa por aqui
um minuto antes de chegarmos.
Está sempre ocupada
correndo atrás de sonhos
não concretizados…
Tentando envolver o mundo
com suas promessas
sem de fato, fazer nada.
Corre ali, atrás da justiça
perante a desigualdade,
procura na feiura, a beleza,
abraçando toda causa impossÃvel.
Mas, acaba perdendo-se no caminho.
e, quando chega ao poema
já desdobrou-se em tantas fantasias
que ainda mais inatingÃvel se faz…
Melhor, então,é esquece-la
vivendo o momento banal,
com a maior intensidade…
sem perder-se em devaneios.
E quando o pão nosso vier
que seja saboreado, sem expectativas.
Porque a felicidade sempre estará ocupada
com seus grandes projetos
de salvar o mundo.
Enquanto isso, no dia-a-dia,
um singelo copo de água
pode, num instante,saciar
esta imediata sede de vida…
22 22UTC fevereiro 22UTC 2009
Â
Quero silêncio para ouvir
meus próprios pensamentos.
Ou simplesmente para nada dizer,
a mim mesma.
Entre vozes gritando
exagerada alegria
ou eventuais infortúnios,
sinto-me como um eco
repetindo os meus.
Mas, dessa conspiração toda,
quero afastar-me
deitando-me nos braços
de um silêncio confortador.
Não tanto para fugir,
mas encontrar respostas
que tenham algum sentido.
Assim,quando minha voz ressoar
entre outras vozes,
que seja para filtrar
ruÃdos desnecessários,
falando de todas as coisas
mais simples deste mundo.
No entanto,eu sei:
é tão complexo o caminho
da verdadeira simplicidade…
21 21UTC fevereiro 21UTC 2009
Â
Rodopio
aqui e ali
na complexidade
dos números
estatÃsticas
previsões.
Sou levada
sem querer
para mundos
desconhecidos
que nada significam.
E seguindo
outros passos
sorrio,sem perceber
Somente nos momentos
em que me permitem
silenciar
procuro as luzes
escondidas
atrás dos temores.
Então, as mentiras
diluem-se…
E toda simplicidade
revela-se.
E paro de girar
como tonta,
e de sorrir
sem razão.
No espaço,ainda ressoam
vozes cansadas
de repetir
as mesmas frases
e os refrões…
Pouco me importa
essa comédia.
Toda engendrada
para alimentar
para vestir
nossos filhos.
Que estudarão
na mesma cartilha.
O que importa agora
é essa terra ainda não semeada
e as luzes que extraÃ
de todos os medos.
Â
Tem seu próprio antÃdoto
contra a sucessão dos dias.
E nunca lamenta aquilo que não é.
Aparentemente seus cabelos embranquecem,
e o corpo curva-se ao inevitável,
assemelhando-se a todos os mortais.
E finge envelhecer comigo,
só para não me deixar constrangida.
No entanto,suas doces palavras
ditas em momentos inspirados
é o néctar que fica…
o aroma que nunca se esvai.
Em todos os tempos,fala-me
sempre com a mesma linguagem
seduzindo-me o espÃrito.
Jamais deixando meus braços vazios.
Mas, quando pronuncio seu nome, retrai-se.
Prefere ser aquele sentimento oculto
que denominado, perde seu poder.
Assim,termino aqui, sem indentificá-lo,
embora a todos seja tão óbvio
como amanhã será, o amanhecer.
Â
Dizia a esfinge:”Decifra-me ou te devoro”.
Diz o mundo agora: “Decifrando-me ou não,
com certeza te devorarei”.
Tal afirmação poderia levar
ao mais profundo desencanto
não fosse a outra questão que se impõe
a um mundo que tudo parece ter vivido
e que tudo parece saber.
Um novo desafio espera-nos.
Antes, eram as figuras eternas
que nos falavam enigmaticamente,
e sem nenhuma pressa aguardavam
por nossas respostas.
Agora, é o tempo, que como um vendaval
passa diante de nossos olhos.
E, impaciente, desloca-se,
sem pedir respostas.
Talvez espere de nós apenas
as perguntas certas…